13 de setembro de 2017

Manual de Artes para idiotas

Ela provoca. Essa é uma de suas funções.
As reações a ela podem ser diversas:
ela pode irritar, desafiar, transgredir.
Ela pode fazer você pensar (muito cuidado)!
Vale a interação, a descoberta.
Arte existe para abrir corações (e mentes).

Gostar dela (ou não) só diz respeito a você.
Não permita que opiniões alheias afetem sua relação com o mundo das Artes;
nem deixe de conhecer a obra por caprichos ou julgamentos de outros,
a menos, claro, que você admita que é incapaz
de elaborar o mais simples, o mais puro, pensamento.

Ame-a, descarte-a ou passe por ela.
Apenas lembre-se:
Arte é Arte.
Independe de sua interferência para ser criada.
Ela sobreviverá apesar dos tempos terríveis,
pois é seu destino levar luz à escuridão.

Thais Simone
Em um momento de caça às bruxas e se perguntando quem (verdadeiramente) são elas.

27 de agosto de 2017

A bota

Eu fui ter botas no dia que decidi caminhar. Mas não era qualquer caminhada. Era uma daquelas que pedia pó, pedia pedra, pedia desbravar. Alma sedenta, paixão aventureira e uma dolorosa falta de algo que não sabia dar nome. Então comprei a bota que me disseram que era própria. Um paliativo para o problema dos inquietos. Não havia muita convicção do que estava fazendo, apenas o desejo pela jornada.

Não nos entendemos muito bem no primeiro momento. Desajeitada, ela se agarrava aos tornozelos e aos pés com o desespero que só as botas novas têm. Saía pisando no que alcançava, molestava outros pés, chutava pedregulhos, agia como se tudo lhe pertencesse. Para piorar, não combinava com nada do armário. Aquele mundo era outro.

Então roupa foi comprada para a bota. Jeans, camisetas, coisas confortáveis que, disseram, eram tão feias quanto a bota, mas que fariam conjunto com ela. Pouco foi gasto no processo, tecidos antigos (esquecidos) foram reformados. Passados felizes e tristes foram visitados e perdoados. Depois daquilo tudo, finalmente a bota se sentiu pronta para enfrentar seu destino!

As primeiras caminhadas dela foram na cidade dura, para "amaciar" o solado. Ela não estava feliz. Queria um solo nem tão negro, nem tão frio. Protestou horrores numa viagem de carro e só parou de reclamar depois de entender que não ia ficar na lata para sempre. Saindo do transporte, finalmente a bota pôde se libertar daquela sina terrível de papelão, metal e asfalto.

Ela pisou na terra pela primeira vez. E não era qualquer terra, era Ollantaytambo, uma terra com pedras ancestrais, onde pés muito menores que os dela sustentaram uma civilização inteira.

A bota subiu altitudes, degraus e degraus. Dobrou as atitudes dos pés, ensinou humildade aos tornozelos e o valor do descanso a todo um corpo pesado. As coisas que não falam sabem desses assuntos e, no silêncio, ensinam a arte do confiar.

No alto de um templo do sol do Valle Sagrado, a bota parou e ficou por tanto tempo, mas por tanto tempo, que deu cãibra no pé que ela carregava. Esperou pelo pôr-do-sol sem resmungar. Orações são verdadeiras quando escapam sem libertar um pedido.

Depois a bota dificilmente saiu de fora de seu pé. Ela subiu até uma cidade de pedra nas alturas, pisou nos Andes, mais de uma vez. Conheceu o seco e árido deserto. Viu lagos, pisou em glaciares, cruzou lagunas congeladas. Ela andou na areia fofa, antes de chegar à molhada. Deu passos pequenos, grandes, indecisos. Ela escorregou, se machucou e continuou a andar. Fez caminhadas lindas, enfrentou outras nem tanto. Mesmo depois de tanto tempo juntas, eu e ela ainda vivíamos separadas. Éramos o instrumento uma da outra. E por mais que nos protegêssemos, não sabíamos de cuidar. Paciência.

Um dia, cansada de uma longa caminhada, houve um "obrigada". Botas ensinam gente que usa botas que o importante é o caminho, é a pergunta e a dúvida, é o movimento; não é o chegar.

Houve atenção ao invés de espera. O pano e a água tentavam limpar o pó. Não saiu tudo. Não era possível apagar as marcas da caminhada sem se danificar toda a estrutura de grãos, de lembranças cuidadosamente armazenadas. O brilho do novo se foi. A idade agora era aparente. Jornadas fazem isso de enrugar peles e couros. Havia aceitação e gratidão no ato. Amar por se amar.

Na hora da espera, aquela que preparava para outro caminho, bota, pé, tornozelo e a gente, todos estavam harmonizados, prontos para pisar em mundos diferentes. Prontos para atravessar.
Thais Simone.

26 de junho de 2017

Diário do escritor: a gratidão e a tatuagem

Ela tem estado quietinha desde a publicação do livro. Motivo: trabalhando no novo livro. Gostei disso de publicar. Foi "diferente".

Tive alguns retornos interessantes.

Gente que leu "de uma sentada". Jamais vou saber se isso é bom ou se é ruim. É provável que seja ambos.

Gente que não entendeu nada. Gente que acha que tem que ter doutorado para ler (e não tem, poesia é sentimento). Gente que comprou e não leu. Aguardam e guardam poemas.

Muita gente ganhou o livro. Educados, reservados, ausentes...

Outros tomaram o livro como quem recebe um presente. Celebraram, choraram, escolheram.

Gente que "nem gosta de poesia", mas que leu assim mesmo e amou o que teve. Pedem por mais.

Muitos, mas muitos se surpreenderam.

Teve gente que achou que conhecia (a autora), agora confundem meu trabalho comigo. Quando nada mais me pertence (o poema é seu!), dão um jeito de me achar ali... A esses aviso: não é possível decidir o quanto no livro pode ser real. Há tantas variáveis nesta incógnita... Melhor parte do relacionamento: a pergunta! Será? :D

Houve gente que gostou tanto, que pegou um bocado para por à venda. Gente que faz propaganda.

E gente que (ainda) ama.

Pessoas: sou-lhes grata.
     
A todos, repito aqui o que disse no lançamento:

Poesia é como tatuagem, só que esta fica gravada na alma.

Vai ter gente que vai olhar e vai achar feio. Como pode alguém se marcar assim? Marca de alma não tem justificativa, fica presa embaixo da pele do ser. Um aviso, um amor, um momento.

Alguns vão procurar por uma com a qual se identifique. Vão escolher com cuidado e moldá-la aos seus contornos para ter com o poema uma relação íntima.

Outros vão admirá-la de longe, invejá-la e querer tomá-la para si.

Espera-se que muitos se apoderem dela. A marca na alma dos leitores, esse é o maior desafio (e perdição) do poeta.

Independente da reação que a marca-poema lhe provoque, uma coisa é certa: essa coisa que se molda à alma, goste ou não, você jamais será indiferente a ela.
Thais Simone. 07/04/17

4 de maio de 2017

Diário do escritor: os poemas nas flores

Nas redes sociais gosto de postar poeminhas, de brincar de fotopoema, de mostrar o que me inspira. Nos meios de comunicação instantânea, me dissolvo rapidamente e me faço lida. Assim me imponho: pela palavra que empresto aos outros.

Houve gente que pediu meu livro porque gostou dos fotopoemas. Fiquei feliz. Houve gente que descobriu que eu escrevia assim. Mas também teve o contrário. Houve quem ficasse chocado que eu tivesse um livro, perguntando: "então aqueles poeminhas nas flores eram seus mesmo?"

Sim, os poemas nas flores são meus. Só que as flores passam deixando a lembrança de um perfume e uma foto de memória. Já os poemas nas flores, esses não morrem. E serão objeto de um terceiro livro.

9 de abril de 2017

Diário do escritor: noite de apresentação

A questão do apresentar-me como autora foi uma pedra no meu sapato. Rejeitei de cara. Coisa de gente que aprendeu a ser reservada, menos por recato, mais por resguardo. Quem sabe o quanto é difícil encontrar seu eu, principalmente quando ele é mutante, sabe que esse eu merece preservação e não exposição.

Não é timidez. Nem medo de palco. Enfrento as luzes da ribalta com relativa tranquilidade. No entanto, prefiro as sombras à luz extrema. Na sombra, a escuridão e a luz se revelam com igual intensidade. Ali talvez more alguma verdade.

Ainda assim me convenceram a fazer um lançamento singelo. Aceitei sem aceitar. Usava mil desculpas e colocava inúmeros obstáculos. Primeiro dizia que queria salvaguardar o livro. Tolinha! O livro tem que deixar a prateleira. Depois, quando (finalmente) me dei conta que a palavra escrita não era de minha posse mais, disse que não faria uma apresentação porque era o livro que devia ser apresentado, não a autora. Sério? Está engando quem? Por fim, meus amigos e meu irmão conseguiram me empurrar na direção do lançamento do livro. A partir daí, as coisas andaram rumo à apresentação do Ausente e da Thais Simone.

Não foi uma festa. Foi um encontro. Ambiente intimista, decoração de bom gosto e uma leveza que eu buscava desesperadamente. Eu queria fugir daquela coisa social, de plumas e paetês e cair na coisa cultural, no acolhimento. Só entendo quem recebe quando ele acolhe e valoriza seu convidado. Não precisa forçar a barra. As pessoas ficam à vontade porque estão se sentindo bem e porque estão felizes em comparecer. Era isso que eu queria e foi isso que eu tive.

Ágata Kaiser, minha amiga, professora e uma das literatas mais sensíveis que eu conheço, fez minha apresentação. Precisa, por sinal. Mesmo com ela própria dizendo-a incompleta. Quem é completo que atire a primeira pedra e quebre o vidro do castelo.

Fiz discurso. Tatuagem. Poesia é tatuagem. Só que ao invés de marcar o corpo, ela marca a alma. Alguns vão achar lindo, outros dirão que é grotesca, mas ninguém fica indiferente à tatuagem, principalmente à da alma. Também me lembro de ter agradecido a todos que me "empurraram" até aquele momento. Lembro-me de ter agradecido meus pais, berço cultural e moral de toda minha vida. E me lembro de não ter dito uma palavra ao Alfredo. Sem seu silêncio, minha alma não poderia ter criado. Esse é o tamanho desse homem que ama e respeita.

Não tive filhos de carne, os meus rebentos são feitos de papel e o Ausente foi só o primeiro.

Thais Simone

1 de março de 2017

Diário do escritor: correio

Então o livro saiu da gráfica. Eu não tinha ideia do trabalho que dava para comercializar a criança. O maior entrave foi em como distribuir, já que sou independente.

Correio no Brasil é uma piada. Já foi um dos serviços mais respeitados do país, mas hoje? O serviço foi sucateado por uma série de más gestões. E nós temos que pagar o pato e enfrentar a burocracia.

Estou horrorizada com o custo de postagem para envio para todo país. A postagem via correio DOBRA o custo do livro. Se eu queria vender a 15, tenho que vender a 30 por causa dos correios. É isso ou não consigo pagar nem o papel em que está o escrito. Uma lástima. E não há opção.

Qualquer site que disponibiliza coisas para a gente, temos a mesma novela. O dobro ou nada. E dizem que lá o livro vai ter mais visibilidade quando na verdade tudo o que querem é pegar o dinheiro daquela sua tia que mora longe e que insiste em não ganhar o livro de presente.

Resta a opção de comprar direto via rede social. Ou comprar direto comigo aqui na minha cidade. Fora isso, Mercado Livre e enfrentar os altos custos para fazer o livro chegar.

Tristeza isso.

28 de fevereiro de 2017

Reestruturando

O blog está passando por uma reestruturação e muitos links foram retirados da ativa. Perdoem o incoveniente. Em breve eles voltam.