27 de julho de 2018

Lua de Sangue

A Lua está ao lado do Planeta Vermelho.
Ela é feita de luz.
Ele, de tempestade.

Ela dormiu nos braços dele.
Ouviu suas cantigas
e acolheu seu desespero.

Luna que emerge do eclipse
recebeu de Marte um presente.
Recebeu um beijo.

Ele sabia.
Não há melhor fase que a cheia,
para despertá-la do banho de sangue.
Marte não seduziu uma amante,
mas uma aliada.

Lua que dorme com o Planeta Vermelho
desperta com fúria.
Agita suas ondas.
Mexe com a Terra.

Como Marte esperava,
a Lua está pronta para amá-lo.
Luna agora quer guerra.

Thais Simone.
27/07/2018

26 de maio de 2018

Os Souza

Nostalgia é quando você se lembra de que foi pequeno um dia. E teve melhores amigos. Talvez sua melhor amiga se chamasse Claudinha e ela tivesse dois irmãos adolescentes chamados Raquel e Juninho. Talvez os pais deles recebessem você na casa deles e esses pais poderiam se chamar Antônio e Cecy.

Você se lembra deles com o coração leve, mesmo tanto tempo depois de seus caminhos terem se afastado, como a vida faz com todo mundo, aliás.

Imagine que você costumava ir para a roça (hoje, Serra do Cipó, e nem é roça mais). Você ia com eles na camionete laranja do tio Antônio. Na caçamba mesmo.

Ela era coberta, mas independentemente disso, as crianças iam cuspindo tijolo porque a estrada era de terra vermelha e era inevitável que a poeira invadisse o carro.

Viajar levava uma eternidade. Ficar sacolejando ali fazia a bunda doer, mas dane-se! Ir para a Serra era promessa de diversão garantida, de um céu cheio de estrelas e da maior lua cheia que você jamais veria na vida.

Você se lembra de ter quase se afogado pelo menos duas vezes na vida: uma na piscina da casa da prima da Claudinha e a outra no córrego da roça. Graças a isso sua mãe mandou você e seus irmãos aprender natação.

Juninho foi quem "pescou" você do córrego quando se afogou lá na Serra do Cipó. E ele ficou muito bravo com a irmã caçula dele. Você nunca teria sabido o motivo, caso a própria Claudinha não tivesse confessado que ela empurrou você do tronco / ponte improvisada. Claudinha ficou desconfortável de lhe revelar essa história, mas seu amor por ela não diminuiu por esses detalhes. Que tipo de melhores amigos vocês seriam se fosse diferente?! (Na verdade, talvez você soubesse e tivesse optado por esquecer).

Você também se lembra de que foi o Juninho quem lhe emprestou o primeiro disco do Queen (e talvez do Deep Purple?). Você só devolveu depois de uma eternidade. Aprendeu a mexer no som do seu pai (área sagrada e intocável da casa!) por causa do Queen!

O Juninho também foi representar os sentimentos da família quando o seu tio Dudu partiu. E provavelmente ele achou isso constrangedor, mas ele lhe ensinou com poucas palavras como presenças e honras eram importantes.

Você também se lembra que tia Cecy passou mal um dia. Raquel, que sempre foi a "healer" para as crianças, pediu para não fazer barulho na casa e todo mundo respeitou. Naquele dia você descobriu que se importava com a saúde dos outros. Isso (talvez) lhe serviria para algo no futuro.

A Raquel foi quem tirou as centenas de espinhos de coqueiro que cismavam em se enfiar entre seus dedos dos pés. Foi ela também quem tirou você da piscina naquele dia que você escorregou. Esse foi escorregão mesmo. Você era criança, logo, tinha propensões a esses acidentes sem noção.

Assim, você foi salvo pelos irmãos que agiam tão naturalmente com essas "coisas de criança" que você não teve que lidar com traumas, nem na natação.

A tia Cecy era uma lady pelos seus olhos de criança. Ela e sua mãe eram as representações femininas de poder. Isso junto com a Zoraide, mas Zoraide é de outra família diferente.

Tia Cecy lhe ensinou a respeitar a humildade das pessoas, mesmo quando tudo o que elas podiam oferecer era água com açúcar. O nectar vindo de gente sem recursos foi bem-vindo naquela noite fria e aqueceria seu coração por toda sua vida.

A boca de Claudinha, Raquel e tia Cecy torciam (torcem) exatamente do mesmo jeito quando queriam contar um segredo. Ou um malfeito.

O arcano e o secreto lhe foram apresentados por essa família. Fosse pelos passes de tia Maria na casa de dona Cremilda, fosse pelas histórias de disco voador, de vampiro ou lobisomem que Raquel e Juninho contavam. Ah como você amava (ama) essas histórias! Talvez você ainda durma com o pé coberto por causa delas...

Na casa de dona Cremilda você tinha medo do maior cachorro do mundo. Depois, ou ao mesmo tempo, Juninho e tio Antônio cuidavam de cães gigantes na casa deles também. Pelo menos uma vez você correu com Claudinha de um desses cães. Era divertido. Era assustador.

Claudinha era simplesmente a menina mais legal do mundo. Era ela quem fazia você rir quando você chorava por perder um jogo. Ela lhe chamava de "chora e ri" e você ria mais ainda. Seu nariz vermelho e o sorriso torto não deviam ter um efeito bonito!

Tio Antônio ensinou com orgulho à Raquel e ao Juninho a dirigir. Ou o Juninho ensinou à Raquel. Ou eles aprenderam e fugiam na camionete conosco de vez em quando. Eram outros tempos. Alguém não podia saber dessa história da caminhonete. Oh-oh.

Esses dois irmãos sempre foram legais porque conversavam com as crianças, por mais pentelhas que elas fossem!

E por falar em carros, a Claudinha foi quem lhe ensinou a usar o desembaçador de vidros na volta da Santa Casa. Vocês duas já tinham carteira, óbvio, mas você nunca se interessou por carros como ela. Coisa da família Souza, quem sabe? Você se lembra bem de que o riso dela foi franco ao descobrir que você ainda usava a flanelinha, como seu pai fazia anos atrás. Não fosse ela, você jamais teria lido um manual de carro. De novo.

Havia também o inesquecível brado do Tio Antônio: "oh, trem bom!" para quem ele considerava a maior cozinheira do mundo: tia Cecy, claro.

Dizem que foi por causa de tio Antônio que o seu irmão do meio nasceu com a língua para fora. Afinal, não se fala em pato a Califórnia para gestantes em final de gravidez! Será que ele "aguou" o menino? Nunca saberemos.

Mas sabemos que essa família fez parte de sua história e que deixou saudades e lembranças de um tempo bom. Um tempo em que era bom e saudável ser criança.

Seja grato.
Saúde e paz a todos eles.

Thais Simone
26/05/2018

7 de abril de 2018

Stand by...

O blog tem estado pouco ativo sim mais por causa das redes sociais que engoliram a comunicação entre as pessoas. Mas eu venho, gente. Eu venho aqui de quando em vez. Venho celebrar assuntos módicos porque hoje tudo tem que ser resumido e pequeno e acabar logo antes que acabe em esquecimento. É assim ou as pessoas não leem... Pena! Há tantas palavras bonitas esperando por alguém que as queiram.

31 de outubro de 2017

Dança na rua

Um manto de cinza rodeou a cidade
e largou o peso das nuvens sobre o seu corpo.
Ela não se importava.
Celebrava seu ritual com cânticos ancestrais.
Pedia por amor.
Não um amor,
amor de verdade,
do homem pela terra onde pisava.
O povo achou estranho
a donzela dançando na rua
sua roupa colada ao corpo.
Foi ignorada.
Houve um tempo no qual as bruxas cantavam,
suas almas brancas se elevavam
e o manto de chuva limpava a dor da cidade.
Hoje ninguém se importa mais
nem com a sua dor,
muito menos com a dor da cidade.
Só a louca na rua
que pela cidade dançava.
Ferozes eram os ventos
que cobraram suas lágrimas.

Thais Simone
Para NL no dia das bruxas.

13 de setembro de 2017

Manual de Artes para idiotas

Ela provoca. Essa é uma de suas funções.
As reações a ela podem ser diversas:
ela pode irritar, desafiar, transgredir.
Ela pode fazer você pensar (muito cuidado)!
Vale a interação, a descoberta.
Arte existe para abrir corações (e mentes).

Gostar dela (ou não) só diz respeito a você.
Não permita que opiniões alheias afetem sua relação com o mundo das Artes;
nem deixe de conhecer a obra por caprichos ou julgamentos de outros,
a menos, claro, que você admita que é incapaz
de elaborar o mais simples, o mais puro, pensamento.

Ame-a, descarte-a ou passe por ela.
Apenas lembre-se:
Arte é Arte.
Independe de sua interferência para ser criada.
Ela sobreviverá apesar dos tempos terríveis,
pois é seu destino levar luz à escuridão.

Thais Simone
Em um momento de caça às bruxas e se perguntando quem (verdadeiramente) são elas.

27 de agosto de 2017

A bota

Eu fui ter botas no dia que decidi caminhar. Mas não era qualquer caminhada. Era uma daquelas que pedia pó, pedia pedra, pedia desbravar. Alma sedenta, paixão aventureira e uma dolorosa falta de algo que não sabia dar nome. Então comprei a bota que me disseram que era própria. Um paliativo para o problema dos inquietos. Não havia muita convicção do que estava fazendo, apenas o desejo pela jornada.

Não nos entendemos muito bem no primeiro momento. Desajeitada, ela se agarrava aos tornozelos e aos pés com o desespero que só as botas novas têm. Saía pisando no que alcançava, molestava outros pés, chutava pedregulhos, agia como se tudo lhe pertencesse. Para piorar, não combinava com nada do armário. Aquele mundo era outro.

Então roupa foi comprada para a bota. Jeans, camisetas, coisas confortáveis que, disseram, eram tão feias quanto a bota, mas que fariam conjunto com ela. Pouco foi gasto no processo, tecidos antigos (esquecidos) foram reformados. Passados felizes e tristes foram visitados e perdoados. Depois daquilo tudo, finalmente a bota se sentiu pronta para enfrentar seu destino!

As primeiras caminhadas dela foram na cidade dura, para "amaciar" o solado. Ela não estava feliz. Queria um solo nem tão negro, nem tão frio. Protestou horrores numa viagem de carro e só parou de reclamar depois de entender que não ia ficar na lata para sempre. Saindo do transporte, finalmente a bota pôde se libertar daquela sina terrível de papelão, metal e asfalto.

Ela pisou na terra pela primeira vez. E não era qualquer terra, era Ollantaytambo, uma terra com pedras ancestrais, onde pés muito menores que os dela sustentaram uma civilização inteira.

A bota subiu altitudes, degraus e degraus. Dobrou as atitudes dos pés, ensinou humildade aos tornozelos e o valor do descanso a todo um corpo pesado. As coisas que não falam sabem desses assuntos e, no silêncio, ensinam a arte do confiar.

No alto de um templo do sol do Valle Sagrado, a bota parou e ficou por tanto tempo, mas por tanto tempo, que deu cãibra no pé que ela carregava. Esperou pelo pôr-do-sol sem resmungar. Orações são verdadeiras quando escapam sem libertar um pedido.

Depois a bota dificilmente saiu de fora de seu pé. Ela subiu até uma cidade de pedra nas alturas, pisou nos Andes, mais de uma vez. Conheceu o seco e árido deserto. Viu lagos, pisou em glaciares, cruzou lagunas congeladas. Ela andou na areia fofa, antes de chegar à molhada. Deu passos pequenos, grandes, indecisos. Ela escorregou, se machucou e continuou a andar. Fez caminhadas lindas, enfrentou outras nem tanto. Mesmo depois de tanto tempo juntas, eu e ela ainda vivíamos separadas. Éramos o instrumento uma da outra. E por mais que nos protegêssemos, não sabíamos de cuidar. Paciência.

Um dia, cansada de uma longa caminhada, houve um "obrigada". Botas ensinam gente que usa botas que o importante é o caminho, é a pergunta e a dúvida, é o movimento; não é o chegar.

Houve atenção ao invés de espera. O pano e a água tentavam limpar o pó. Não saiu tudo. Não era possível apagar as marcas da caminhada sem se danificar toda a estrutura de grãos, de lembranças cuidadosamente armazenadas. O brilho do novo se foi. A idade agora era aparente. Jornadas fazem isso de enrugar peles e couros. Havia aceitação e gratidão no ato. Amar por se amar.

Na hora da espera, aquela que preparava para outro caminho, bota, pé, tornozelo e a gente, todos estavam harmonizados, prontos para pisar em mundos diferentes. Prontos para atravessar.
Thais Simone.

26 de junho de 2017

Diário do escritor: a gratidão e a tatuagem

Ela tem estado quietinha desde a publicação do livro. Motivo: trabalhando no novo livro. Gostei disso de publicar. Foi "diferente".

Tive alguns retornos interessantes.

Gente que leu "de uma sentada". Jamais vou saber se isso é bom ou se é ruim. É provável que seja ambos.

Gente que não entendeu nada. Gente que acha que tem que ter doutorado para ler (e não tem, poesia é sentimento). Gente que comprou e não leu. Aguardam e guardam poemas.

Muita gente ganhou o livro. Educados, reservados, ausentes...

Outros tomaram o livro como quem recebe um presente. Celebraram, choraram, escolheram.

Gente que "nem gosta de poesia", mas que leu assim mesmo e amou o que teve. Pedem por mais.

Muitos, mas muitos se surpreenderam.

Teve gente que achou que conhecia (a autora), agora confundem meu trabalho comigo. Quando nada mais me pertence (o poema é seu!), dão um jeito de me achar ali... A esses aviso: não é possível decidir o quanto no livro pode ser real. Há tantas variáveis nesta incógnita... Melhor parte do relacionamento: a pergunta! Será? :D

Houve gente que gostou tanto, que pegou um bocado para por à venda. Gente que faz propaganda.

E gente que (ainda) ama.

Pessoas: sou-lhes grata.
     
A todos, repito aqui o que disse no lançamento:

Poesia é como tatuagem, só que esta fica gravada na alma.

Vai ter gente que vai olhar e vai achar feio. Como pode alguém se marcar assim? Marca de alma não tem justificativa, fica presa embaixo da pele do ser. Um aviso, um amor, um momento.

Alguns vão procurar por uma com a qual se identifique. Vão escolher com cuidado e moldá-la aos seus contornos para ter com o poema uma relação íntima.

Outros vão admirá-la de longe, invejá-la e querer tomá-la para si.

Espera-se que muitos se apoderem dela. A marca na alma dos leitores, esse é o maior desafio (e perdição) do poeta.

Independente da reação que a marca-poema lhe provoque, uma coisa é certa: essa coisa que se molda à alma, goste ou não, você jamais será indiferente a ela.
Thais Simone. 07/04/17

4 de maio de 2017

Diário do escritor: os poemas nas flores

Nas redes sociais gosto de postar poeminhas, de brincar de fotopoema, de mostrar o que me inspira. Nos meios de comunicação instantânea, me dissolvo rapidamente e me faço lida. Assim me imponho: pela palavra que empresto aos outros.

Houve gente que pediu meu livro porque gostou dos fotopoemas. Fiquei feliz. Houve gente que descobriu que eu escrevia assim. Mas também teve o contrário. Houve quem ficasse chocado que eu tivesse um livro, perguntando: "então aqueles poeminhas nas flores eram seus mesmo?"

Sim, os poemas nas flores são meus. Só que as flores passam deixando a lembrança de um perfume e uma foto de memória. Já os poemas nas flores, esses não morrem. E serão objeto de um terceiro livro.

9 de abril de 2017

Diário do escritor: noite de apresentação

A questão do apresentar-me como autora foi uma pedra no meu sapato. Rejeitei de cara. Coisa de gente que aprendeu a ser reservada, menos por recato, mais por resguardo. Quem sabe o quanto é difícil encontrar seu eu, principalmente quando ele é mutante, sabe que esse eu merece preservação e não exposição.

Não é timidez. Nem medo de palco. Enfrento as luzes da ribalta com relativa tranquilidade. No entanto, prefiro as sombras à luz extrema. Na sombra, a escuridão e a luz se revelam com igual intensidade. Ali talvez more alguma verdade.

Ainda assim me convenceram a fazer um lançamento singelo. Aceitei sem aceitar. Usava mil desculpas e colocava inúmeros obstáculos. Primeiro dizia que queria salvaguardar o livro. Tolinha! O livro tem que deixar a prateleira. Depois, quando (finalmente) me dei conta que a palavra escrita não era de minha posse mais, disse que não faria uma apresentação porque era o livro que devia ser apresentado, não a autora. Sério? Está engando quem? Por fim, meus amigos e meu irmão conseguiram me empurrar na direção do lançamento do livro. A partir daí, as coisas andaram rumo à apresentação do Ausente e da Thais Simone.

Não foi uma festa. Foi um encontro. Ambiente intimista, decoração de bom gosto e uma leveza que eu buscava desesperadamente. Eu queria fugir daquela coisa social, de plumas e paetês e cair na coisa cultural, no acolhimento. Só entendo quem recebe quando ele acolhe e valoriza seu convidado. Não precisa forçar a barra. As pessoas ficam à vontade porque estão se sentindo bem e porque estão felizes em comparecer. Era isso que eu queria e foi isso que eu tive.

Ágata Kaiser, minha amiga, professora e uma das literatas mais sensíveis que eu conheço, fez minha apresentação. Precisa, por sinal. Mesmo com ela própria dizendo-a incompleta. Quem é completo que atire a primeira pedra e quebre o vidro do castelo.

Fiz discurso. Tatuagem. Poesia é tatuagem. Só que ao invés de marcar o corpo, ela marca a alma. Alguns vão achar lindo, outros dirão que é grotesca, mas ninguém fica indiferente à tatuagem, principalmente à da alma. Também me lembro de ter agradecido a todos que me "empurraram" até aquele momento. Lembro-me de ter agradecido meus pais, berço cultural e moral de toda minha vida. E me lembro de não ter dito uma palavra ao Alfredo. Sem seu silêncio, minha alma não poderia ter criado. Esse é o tamanho desse homem que ama e respeita.

Não tive filhos de carne, os meus rebentos são feitos de papel e o Ausente foi só o primeiro.

Thais Simone

1 de março de 2017

Diário do escritor: correio

Então o livro saiu da gráfica. Eu não tinha ideia do trabalho que dava para comercializar a criança. O maior entrave foi em como distribuir, já que sou independente.

Correio no Brasil é uma piada. Já foi um dos serviços mais respeitados do país, mas hoje? O serviço foi sucateado por uma série de más gestões. E nós temos que pagar o pato e enfrentar a burocracia.

Estou horrorizada com o custo de postagem para envio para todo país. A postagem via correio DOBRA o custo do livro. Se eu queria vender a 15, tenho que vender a 30 por causa dos correios. É isso ou não consigo pagar nem o papel em que está o escrito. Uma lástima. E não há opção.

Qualquer site que disponibiliza coisas para a gente, temos a mesma novela. O dobro ou nada. E dizem que lá o livro vai ter mais visibilidade quando na verdade tudo o que querem é pegar o dinheiro daquela sua tia que mora longe e que insiste em não ganhar o livro de presente.

Resta a opção de comprar direto via rede social. Ou comprar direto comigo aqui na minha cidade. Fora isso, Mercado Livre e enfrentar os altos custos para fazer o livro chegar.

Tristeza isso.

28 de fevereiro de 2017

Reestruturando

O blog está passando por uma reestruturação e muitos links foram retirados da ativa. Perdoem o incoveniente. Em breve eles voltam.

15 de fevereiro de 2017

Bolinho

Misture uma caneca de boas lembranças com meia dúzia de sementes de fé e três colheres de doçura. 
Bata as três na sua cabeça até formar uma massa.
A pitada do amargor de ontem serve para dar equilíbrio à massa, mas não pode ser muita, senão a receita desanda.
Amigos à gosto. Eles dão um suave sabor de fidelidade à massa.
E para ficar bem de vez, é preciso uma boa dose de coragem.
Continue mexendo a mistura até o ponto de bobo. 
E quando a massa firme e bem estruturada estiver soltando da vasilha, ponha amor em fermento e deixe assentar numa forma.
Por último, desenforme isso tudo da sua cabeça e deixe cozinhar no coração por meia hora. 
Sirva com canela, café ou chocolate. 
Fica ótimo!
Thais Simone

28 de julho de 2016

Réquiem

Eu estou aqui para dizer adeus e despedida nunca é fácil.
Vou me esquecer de que você se foi por um momento para dizer o quanto nós o amamos e o quanto ainda vamos amar.
Você foi luz para muita gente: sua família, seus amigos, seus pacientes, até para aqueles com quem você topava uma vez ou outra. Gente que você resgatou com sua palavra, com seu sorriso de criança, com sua voz poderosa. Tudo culpa desse seu coração generoso. Tudo próprio de almas grandiosas. Você era bom na arte de cativar.
Unânime? Não. Ninguém é. Afinal, a luz quando é demais cega olhares pequenos, incapazes de enxergar.
Você pode não estar aqui para nos ouvir agora, mas que seu espírito saiba que vai deixar saudade. Só não vai deixar vazio: seu brilho foi intenso e esse será seu legado.
Seremos sempre gratos pelo tempo que dedicou a esses terrenos pequenos.
Para os que ficam e que têm dúvidas: saibam que "o mesmo Deus que dá o livre arbítrio é capaz de imensurável misericórdia". Creiam que por causa disso, nosso amigo agora está em paz.

Para Ricardo Alexandre Santos
no seu sétimo dia desde a partida.
Thais Simone.

27 de abril de 2016

Mudando a cara...

Poesia está vindo.
Está se transformando.
E se modificando.
Logo a apresentação da palavra vai se alterar um pouco aqui e acolá.
Poesia é assim: caminha muito para conseguir ficar.

3 de março de 2016

Diário do escritor: Persona

Pediram que eu escrevesse uma história de personagem... Os dias se passaram sem que a criatura se manifestasse. Chegava perto da entrega do trabalho e ela não aparecia.

Eu sabia que era uma moça e que ela não teria cabelos ruivos dessa vez. Ninguém jamais terá cabelos ruivos nessas histórias encomendadas. Damas de fogo são raras, me recuso a banalizá-las! Tudo o que via da nova figura eram os olhos amendoados... Oblíquos? Também não. Aquela com olhar oblíquo foi única e não me pertenceria, não importa o quanto a desejasse. Então a minha teria amêndoas nos olhos grandes e castanhos, com rajados verdes em apenas um deles. No tempo dessa nova pessoa, a heterocromia era coisa de malditos. Aliás, em qual tempo não se faz maldito aquele que é diferente, seja de nascença, seja por escolha? Bem, se ela era amaldiçoada, então talvez ela nem precisasse de cabelos. Pronto! Nada de cabelos ou de DNA perdidos na cena do crime!

Mulher maldita só pode ser... Uma bruxa! Ah, os poderes que as mulheres têm e não revelam... Adoráveis! Toda mulher se crê bruxa e conhece suas possibilidades inconfessáveis. Não foi por isso que escolheram a pobre Eva para ser a culpada pelas desgraças alheias? Ou será que essa foi Pandora? Minha persona era muito pequena naquela época, ela não se lembraria de algo assim. E o que ela não sabe ou do que não se lembra, eu também desconheço. Todo autor deveria respeitar o antigo pacto entre criador e criatura. É. Deveria.

Fácil escolher atributos. Mais difícil é dar-lhe alma... Quem ela é e de onde veio, ela não conta. Talvez sua cabeça raspada seja por causa de uma promessa, dessas feitas em convento, sob olhares severos. Ou talvez seja por ter condenado uma cidade inteira a sofrer com sua ausência. Quem sabe ela não andava fora da lei? E que lei foi essa que ela quebraria? Seria nobre ou suja a sua causa? Sobreviver é soberano, ainda que não sejamos reis. Ela não se importaria com seu passado porque ninguém deu atenção a ele antes. Logo, para ela não ia ser no passado o lugar onde moraria sua alma, mas no que ela faria hoje para afetar seu futuro. Uma boa bruxa pensa assim.

Hoje ela é anima a ser construído: alma com a intenção de ser. Intenções farão dela algo cheio de vontades. Vontades que podem ser realizadas ou execradas. Mas como essa nova mulher ainda não foi escrita, então ainda não sei se ela se dará ao trabalho de registrar qualquer de seus feitos. Ou se - ao contrário - será magnífica.
 Thais Simone.
(Para um certo contador de histórias) 

5 de janeiro de 2016

Diário do escritor: agente literário, autopublicação e vaidade

Sou defensora da publicação de novos autores. Tenho acesa essa esperança de que podemos ser melhores que ontem e que uma das formas de se atingir esse objetivo é com bons livros e mais leitores. Alcançar leitores num país que não lê é aventura de história sem fim. O trabalho começa assim que se termina de escrever o livro.

Publicar é sofrível, principalmente quando você não faz ideia do que está fazendo. Ninguém ajuda autor iniciante. Ninguém. Sabe aquela fantasia de filme, de ter alguém para representar seu livro junto às editoras? Alguém que acha uma brecha no sistema para que você publique? Esqueça. Esse alguém não existe. Não na prática, especialmente para os meninos perdidos que brincam nas ruas esburacadas da internet: nós, os novatos.

Imagino da seguinte forma: há dois círculos. Dentro do primeiro círculo estão os autores e suas rainhas são a criatividade, a imaginação e toda a capacidade inventiva. O segundo círculo pertence à publicação e tem um único rei: o dinheiro.

Falar sobre publicação é falar sobre dinheiro.

Se você tiver um conhecido que escreva no exterior, vai descobrir que existe uma figura chamada agente literário. De acordo com o tio Google e a dona Wikipedia, é "um profissional ou empresa que representa escritores e seus textos junto a editores e produtores teatrais e de cinema, assistindo-os na venda e negociação dos mesmos". Fora do Brasil, agente literário funciona: o facilitador que leva o trabalho para as editoras corretas, sabe dos honorários deles e dos autores, negocia, assiste. Nos Estados Unidos, por exemplo, quase não há publicação sem agente. Aqui no Brasil, agentes literários são os meninos que moram na casa mais chique do bairro. E eles não saem para brincar na rua. Nem convidam meninos perdidos para a festa.

São poucos os profissionais disponíveis no país e talvez por isso eles dizem não ter tempo para perder com iniciantes. Pela quantidade de autor que vejo por aí, imagino que não mesmo. Os agentes querem tudo pronto: o livro bem escrito e os leitores, ou seja, só trabalham com autor conhecido. Conseguir uma entrevista com um agente literário é caro. Eles vão cobrar para ler o seu original (ainda que rejeitem representá-lo), vão cobrar se você insistir em tê-los como representante e vão cobrar se alguma editora resolver publicar o seu livro.

Você paga por tudo. E se alguém disser que vai fazer alguma coisa, qualquer coisa, de graça, corra! Não existe almoço ou festa grátis. Você paga por tudo: seja com dinheiro, seja com o desperdício de seu precioso tempo.

Têm se estimulado cada vez mais a vanity press, impressão por vaidade, cujo nome hoje é mais chique: autopublicação. Eu sei, também senti uma fisgada no coração quando me dei conta que todo trabalho dedicado a um escrito não passa de vaidade para o mundo editorial. Pior! O grau de vaidade é diretamente proporcional ao quanto ficamos irritados com a palavra vanity em todas as suas traduções.

O mercado editorial viu no universo de autores uma grande oportunidade de negócios. Não são os nossos livros o objeto de desejo deles. Não há apreço por livro ou por seu conteúdo, por mais ácido que isso soe. O dinheiro dos autores é o que eles querem. Se poucos leem e um monte de gente escreve, logo, o mercado consumidor é o autor, não o leitor! O mundo da publicação precisa abocanhar esse mercado.

Apesar disso, a autopublicação está muito mais barata do que já foi no passado. Há inúmeros sites que facilitam a vida do autor: dão assistência para tudo, do ISBN à capa. E há preços que cabem no bolso de todo mundo.

Mas o mercado da publicação não barateou esses custos porque é bonzinho. Reduzir o custo da impressão é uma necessidade das editoras. A internet criou um problema quando digitalizou a informação que saiu do papel e se tornou mais acessível. Mas a solução também é digital: o ebook, tão mais barato para todo mundo: autor, leitor e editora. Some a isso o fato de que todo autor lê (ou deveria). Se a editora convencer o autor que pode confiar a sua publicação ao ebook, estará convencendo mais um leitor a ler e comprar ebooks. Corrijo isso: um autor pode fazer mais de um leitor aceitar o ebook, por menor que seja seu nicho. Aparentemente todo mundo ganha.

As gráficas dizem que há mercado para elas, que há quem prefira folhear o livro. Eu prefiro o livro, mas ao mesmo tempo, nem tudo que compro e leio é impresso. Quero ler os novos autores em ebook porque converso com eles em fóruns e quero ter os livros deles logo que saem. Autopublicação acaba sendo uma saída adequada para (quase) todo mundo, desde que se adapte ao seu bolso, tempo e grau de paciência.

Agora, se o livro vai ser um sucesso... Ainda que se gaste horrores na publicação, ninguém pode garantir isso. Acontecer depende de talento, sorte e de muito trabalho. Não deixa de ser um exercício diário de fé.

Alguém está errado nessa história? Não. Editora quer fazer dinheiro. Agente literário quer fazer dinheiro. Gráficas também querem dinheiro. E autor quer ser lido, quer fazer sucesso. Quem é que alimenta a vaidade? E o que é que vem junto com o sucesso mesmo? Apontar vilões e mocinhos é infantil. A vida é como é. Se quer ser autor, seja prático, trabalhe e não odeie os meninos da casa bonita. Quem sabe um dia a garotada da rua também faça festa.
 Thais Simone.

17 de novembro de 2015

"To Sir with love"

Querida,

Trago notícias. Ele se foi.
Você achou que ele sempre estaria ali. Achou que ele jamais partiria. Como poderia?
Você ainda se lembra dele, à frente como um farol na sala escura. A paz para ensinar, o sorriso discreto... Suas teorias, discutidas com olhos brilantes, o infinito e o humano sempre em foco. Até o fato de ele não ir à formatura (exceto à nossa! Pelo menos até aquele dia!), tudo isso fazia dele único. Especial.
Não tem tamanho o pesar por sua perda. Mas ao invés de sentir um buraco no peito, fiquemos bem.
Nenhum homem é imortal, quando tudo o que se deseja dele é apenas o seu comparecer - o seu corpo feito de carne e ossos presentes neste espaço.
Só o mestre é imortal.
Ele fez de nós parte de tudo que ele tinha. Parte, uma milésima parte, do saber dele.
Homem etéreo que nos doou tempo e luz: sua sina é ser eterno em nossos corações.
Esteja em paz.  
Para o Professor Sarmento da Neuroanatomia.

1 de março de 2015

Diário do escritor: antes do ISBN

Era para escrever um diário, mas não há nada de dia nesses escritos. Só existe noite, estrelas e cansaço. Assim tem sido a história que anda junto com o livro. Tudo nele pertence à noite, como tudo que é primeiro: da escrita à sua transformação em folha. Gente que é gente e que precisa trabalhar fora da literatura para viver faz assim. O resto: viver de escrever, é fantasia, logo, é de noite que se rega sonho e o desse livro, dá em árvore.

Até ontem o livro estava sozinho, semente de coisa guardada. Sites para autores iniciaram a mudança do escrito para dentro de uma capa, de um invólucro. Houve um bem-vindo apoio de baixo custo na internet. Foi dali que veio a ajuda para a obtenção do ISBN, o “International Standard Book Number”.

Precisar do ISBN para publicar, na verdade, não precisa. O ISBN não é obrigatório. Mas com ele o livro pode ser encontrado em qualquer lugar do mundo, facilitando a comercialização, por menores que sejam as pretensões de vender a literatura.

Há uma lista de questões sobre o autor e sobre sua obra antes de se obter o ISBN. Não é difícil que o próprio autor se torne um autor / editor e faça sozinho a sua inscrição junto à Biblioteca Nacional (BN): o processo é burocrático, mas automatizado.

O questionário da BN incluía: o título da obra; o subtítulo. Originalmente o meu livro não tinha subtítulo, mas com um título abstrato, amigos orientaram que ficasse claro (para os leitores) que os escritos se tratavam de poemas e não de esoterismo, romance ou qualquer imprecisão alheia a ele. A BN perguntou também se o autor tinha pseudônimo, qual era o assunto (poesia brasileira), qual era o idioma (duh!) e o tipo de obra: independente? Volume de coleção? Fascículo? Por eliminação a obra era independente. Engraçado um filho ser independente sem nunca ter nascido, mas a BN não joga com palavras.

Também queriam saber sobre edição e ano, sobre cidade e estado, como se isso fosse de grande relevância para quem fosse ler a sua poesia. Sim, algumas perguntas são óbvias, por outro lado, o objetivo do ISBN é tornar a obra (e sua edição) única. Quanto mais específicas forem as informações, mais preciso será seu registro. Por isso, a burocracia deve ser perdoada.

A obtenção do ISBN começou a complicar à medida que o questionário seguia: qual o formato do livro? Hoje existe fotolito e png. Perguntei ao “tio Google” o que era isso e ele me esclareceu: um tipo é para impressão do livro em folha, dessas que se arranca de árvore, e o outro tipo era para publicação digital. Respondi que o livro queria os dois, até para evitar o inconveniente de ter que voltar à BN e fazer outro registro.

O preconceito com e-book vem acabando bem devagar entre as gerações mais experientes. Publicações, que de outra forma não alcançariam o mercado ou que não cruzariam a fronteira entre os países, podem ser adquiridas com muita facilidade e a um custo bem razoável: não se precisa mais pagar pelo papel do livro e por seu transporte, a menos que se queira ter o maço de folhas em suas mãos. Também concordo que o cheiro dos livros jamais será substituído por qualquer perfume. Igualmente, ainda se trabalha numa forma de substituir o prazer de folheá-lo, mas a opção menos “custosa” e com melhor penetração no mercado é a do formato digital (assim me disseram). As gerações mais novas não só já perceberam isso, como têm se valido do formato para ler mais e, quem sabe, melhor.

De volta ao ISBN, o questionário chegou a itens obscuros, completamente estranhos para quem nunca publicou. Qual era o tipo de papel: simples? Há que ser dito que todo papel escrito é complicado, morre-se por ele inclusive, mas não era isso que a BN queria saber. Também perguntaram qual era o tamanho do livro (A4, A5 e uma lista de “outros”), se a capa era brochura, espiral ou dura e qual era a quantidade de páginas.

Deve-se ter em mente que a publicação de um livro é um processo e há coisas que precisam estar prontas antes de outras. Na falta de um roteiro, autor independente vai quebrando a cabeça e lendo a experiência dos outros. Por exemplo, o tipo de encadernação depende da quantidade de páginas e para saber quantas páginas, é necessária a diagramação.

Organizar as ideias, colocar índices, ter folha de rosto, saber onde fica a ficha catalográfica, inserir sumário, dedicatória, prefácio, minibiografia e pôr tudo isso em ordem demanda tempo. Há algumas regras básicas, mas de modo geral, para o miolo do livro não há qualquer norma a ser seguida. Com o miolo, autor pode fazer o que quiser. Para organizar o resto, existe o diagramador. Caso essa opção aumente o custo, o autor pode diagramar seu próprio livro: há instruções bem interessantes disponíveis na internet tanto para organização do livro quanto para a fabricação de uma bomba caseira. Ás vezes é difícil saber a diferença. Para diagramar, basta ter tempo e paciência.

Hoje o livro está em diagramação, sem que se consiga passar para a fase de obtenção do ISBN. Pequeno galho de árvore em espiral caótico à procura de sol. Diagramação demora. Um amigo tentou ajudar, mas ele também só podia ceder a noite ao livro e nós desistimos. De volta ao site de baixo custo, o livro foi preparado para a impressão e para o formato digital.

O diagramador perguntou se o livro teria orelha. A orelha do livro, aquela parte que fica dobrada e que pode ser usada como marcador de página só serve para uma coisa: encarecer o custo de impressão, caso se opte por ela. As informações da orelha podem conter o que o autor desejar. Novamente, não há regra absoluta, mas no site consultado disseram que as orelhas deviam fornecer um pequeno resumo da obra para a orelha da capa e uma minibiografia para a da contracapa, além da foto do autor. Assim as ordens para o autor eram: faça resumo da obra, faça minibiografia e tire foto.

Só conheço autor tímido, sem a menor intimidade com a lente de uma máquina fotográfica. Imaginem o suplício para convencer o ser autor que mora no meu invólucro que ele tinha que tirar foto. No final, a foto ficou boa. Exigi que não a trabalhassem. Autor quando quer mentir, usa a ficção. Só ela já nos basta.

Com tanto recurso, as árvores de livros nascem e crescem como bem entendem. A chamada democratização da literatura. Tornou-se terreno fértil para grandes editoras. Criou-se um mercado para um consumidor específico: aquele que escreve e que vai pagar para ser publicado. Bom para quem vende o serviço, interessante para o autor que compra esse serviço a baixo custo. A simbiose pode ser boa para os dois lados. Mas só o tempo vai poder revelar os seus vícios.


Thais Simone

28 de maio de 2014

Diário do escritor: depois da escrita

Você rala pra caramba para escrever. Passa noites acordado, se questiona, duvida, volta à mesa, reescreve, reinventa, cria até que não aguenta mais e dá o trabalho por encerrado. Note que a palavra foi encerrado, não terminado. Difícil achar autor que não queira mudar uma vírgula depois de escrito. Então não, nunca estará terminado ou pelo menos não antes de se estar farto.

Enfim, você acha que escrever o livro é o mais difícil e que depois que ele estiver escrito, tudo estará bem... A fada madrinha surgirá e o encantará fazendo-o magicamente chegar à prateleira. Sim, no mundo de fantasia é isso mesmo que acontece. Na vida real é assim: trabalho, trabalho, trabalho e trabalho.

É lindo ouvir dos outros que você escreve tão bem! Devia escrever um livro! Sim, você devia. Mas escrever é igual casamento. Você só sabe o tamanho do problema depois que o anel no dedo já perdeu o brilho e os filhos e a mulher estão berrando dentro do carro exigindo tudo de você. Escrever é o grande dia. O que segue depois sim é o verdadeiro casamento.

A diagramação não parece ser difícil, a menos que você queira elementos diferentes de letras entremeando suas palavras. Há vários guias na Internet de como fazê-lo. Por outro lado, justamente a Internet tem facilitado o acesso ao artista gráfico, ao diagramador e a todo tipo de profissional que possa organizar suas palavras de uma forma que fiquem ainda mais interessantes no papel. Você só não sabe de quem você vai precisar até iniciar o processo.

O artista gráfico costuma ser o primeiro endereço, tanto para a diagramação quanto para a formulação da capa, seguido pelo fotógrafo, caso esse seja necessário.

No meu caso, tentei fazer tudo sozinha antes de pedir ajuda. Fiz a diagramação, depois fui tirar fotos para a capa. Tentei montar a estrutura toda. No final, o trabalho foi tanto, que desisti e pedi a ajuda dos amigos.

Não é impossível fazer tudo por si. Algumas pessoas dizem que fica mais barato... Se por barato se entende apenas a espécie, então sim, fica mais barato. Mas "preço" e "valor" são quesitos diferentes. Depende do que se considera custo. Falam tanto de dinheiro e se esquecem que tempo também faz parte do custo.

Sou autora independente, logo, para sobreviver, preciso fazer dinheiro por outros meios. Parar de trabalhar para me dedicar ao livro é custo. Aprender a fazer diagramação, a tirar uma foto para a capa, isso é custo. Tudo depende de quais são os seus valores... Ficar sem dormir à noite porque estou escrevendo é diversão. Quem reclama de uma boa noite de sexo no dia seguinte? Ficar sem dormir porque estou aprendendo a centralizar um texto, isso é trabalho. Trabalhar a noite inteira deixa qualquer um exaurido. Uma vez estabelecidos quais os seus valores, estabeleça o seu orçamento, para depois arcar com seus custos, sejam eles quais forem.

Estou na fase de diagramação e de formulação da capa. Essa etapa tem sido a responsável por espantar da janela as borboletas, as vozes distantes, os gigantes, os dragões e até a lua. Nunca imaginei que fosse tão difícil. Sobrou para todo santo conhecido: amigo, artista gráfico, fotógrafo, o irmão artista. Outros amigos ajudaram cedendo seus ombros quando a cabeça precisou de descanso e apenas o desabafo já não resolvia.

Quis uma foto. Como o tema do livro é abstrato, tão fácil de definir quanto um sentimento, persegui uma utopia por muito tempo. Depois de longas reflexões, consegui me decidir por uma capa.  Então o artista gráfico quis saber de cores e eu tive vontade de matá-lo quando começou a me apontar tudo o que eu precisaria escolher ainda. Extenuante. Onde mesmo que foi parar a tal fada madrinha que deixa tudo pronto? Também estou procurando.

O fato é que o livro está a caminho, rumo à luz que mora do lado de fora da gaveta. Para o bem ou o mal, ele está chegando.

Próximos objetivos: aprovação da capa e diagramação. ISBN.
Thais Simone.
28/05/14

17 de novembro de 2013

Diário do escritor: conselho aos candidatos à musa

Pessoas inspiram umas às outras. Algumas com seu amor, sua visão otimista, suas energias positivas... Outras com o seu ódio. O que provocam não importa. Só o que importa é o que um autor faz com a provocação. Sentimento não passa de um conceito de dicionário se não estiver ligado a um alguém, logo existe essa pessoa, aquela que inspira o autor. Musa é o nome da entidade que inspira as artes. É frequentemente subestimada por remeter ao gênero feminino. Qualquer um quer se apossar do masculino deus, mas nem todo mundo quer ser musa. Talvez seja mais tolerável utilizar um substantivo de dois gêneros no lugar de musa, como “personagem”.

Seja na prosa, seja no verso, as pessoas que inspiram o autor tornam-se personagens de um desejo. Parece muito sedutor e lisonjeiro, não fosse igualmente perigoso. Para inspirar alguém sem se magoar com isso, há algumas premissas básicas a serem desveladas.

A regra mor do candidato à musa é ter muito cuidado com o que tem nas mãos. Isso que eventualmente lerá é só um texto, não um espelho.

O sopro inspirador, o personagem, deixa de ser ele mesmo ao ser desfigurado para se tornar palavra. E uma vez criado, estará sujeito a paixões violentas, amores complicados, atos heroicos ou funestos. Todas as corrupções da alma humana são viáveis em um personagem, por isso um autor se apaixona por ele. O personagem tem incontáveis possibilidades. Mas você, que o inspira, continuará sendo limitado.

Se você é uma musa, digo, um personagem, garanto que para o autor, você será sempre belo, independente de qualquer conceito de maldade que lhe for imputado.

Quem for do autor a musa, se tornará o mais maravilhoso dos (i)mortais. Será admirado por ninfas e invejado por deuses, exatamente como Narciso, aquele que se encanta consigo ao ser observado. No entanto, cabe lembrar que Narciso morre afogado. Assim, evite a soberba.

O que acontece com o personagem depois do alento divino é que ele ganha vida e segue seus próprios passos. Não os seus passos, mas os dele. Nem tudo é biografia e esta é privilégio de poucos.

Por outro lado, a alma de um personagem se manterá segura dentro de um livro. Mas você que inspirou um autor hoje, dificilmente será o mesmo amanhã. Páginas tratam personagens com ternura enquanto o tempo do lado de fora do livro prosseguirá à sua revelia.

Uma parte de você será eternizada, mas você não poderá escolher se para o bem ou para o mal. Algumas vezes, só o julgamento de um terceiro, o leitor, é o que submeterá o personagem a qualquer um dos destinos.

E que seja espontânea a descrição dos personagens. Procure não obrigar o autor a escrever sobre você. Os resultados podem ser inesperados. Lembre-se, não há nada mais instável que céu de escritor. De repente o sol se fará encoberto por redemoinhos de tormentos.

Assim, seja prudente. Melhor não procurar por semelhanças. Melhor nem ser musa! E se for personagem, evite sabê-lo.

Não se preocupe. Por amor, o autor irá ampará-lo... Para que não se sujeite ao julgamento, ao tempo ou a um destino desconhecido, o autor jamais revelará que você o inspirou e que é você quem está ali retratado. Ele pretende assim protegê-lo de toda e qualquer deterioração provocada pela vaidade. Nem que para isso o autor tenha que se expor, como se você, o personagem, fosse ele.